Trustália - uma
quase distopia
Sinopse
A população de um pequeno povoado tem seu destino
radicalmente alterado após o aparecimento de uma misteriosa luz amarela. A
partir do fenômeno, os habitantes começam a ouvir os pensamentos alheios. Essa
ideia, inicialmente simples, permitirá ao autor imprimir uma desconstrução
progressiva dos caracteres humanos, gerando com isso reflexões acerca das sutis
estratégias presentes nas relações cotidianas, da não fixidez das
personalidades, das incontáveis inverdades oficializadas, naturalizadas e ou divinizadas,
e ainda, da própria validade e legitimidade da palavra em suas muitas formas de
uso.
Embora se passando num tempo pregresso indeterminado,
talvez de nossos avós ou bisavós, a história fala da vida na atualidade e
pretende ser uma metáfora da era da plena informação e comunicação, essa que
vem colocando abaixo valores, comportamentos e sentidos inaugurados há séculos,
e pela primeira vez, sem que haja sinais de novas possíveis utopias que venham
substituir tudo o que agora se desmorona no mundo.
Trechos
"Não havia mais caminho de ida ou de volta, o mundo estava por um
fio. A não ser que partissem de lá. Mas algo não deixava: uma espécie de anjo
exterminador que construíra uma redoma invisível, à prova de fuga. Seria outra
manifestação do fenômeno? Ou eram as mentes tornadas viciadas, que agora
estavam presas umas às outras, naquela rede sinistra de comunicação
absoluta?"
"O
mundo desabava aos olhos de padre Antero. Se em outros tempos escolhera viver
de corpo e alma dedicados à fé, agora, a voz da razão, a qual ele tentara calar
à força para gozar a plenitude da crença, invadia-lhe a chicotadas as
intermitências do espírito, apresentando-se como inimiga maior de tudo que construíra.
A começar pela própria reflexão do quanto sua crença também havia sido
construída e não brotada por arrebatamento. E havia outro sentimento, até mais
incômodo: o quanto o ciúme quase doentio que sentia da noiva, aquele sentimento
tão bem escondido, que tanto o diminuía, o qual jamais teve coragem de assumir
diante dela, de ninguém, depois nem de si mesmo, que lhe fazia ter medonhas
fantasias de abandono e escapava de estranhas maneiras, embora ela de nada
desconfiasse, enfim, o quanto isso teria pesado em sua decisão de desmanchar o
noivado e aspirar à batina?"
"Foi
lá que a deitou já lhe abrindo as pernas e mergulhando a boca naquele presente,
na jóia rara de desenho delicado, de lábios rosados e cheiro suave de fêmea.
Ali explorou com sua língua os pequenos segredos da densidade, às vezes
levantando a cabeça e admirando aqueles seios médios, duros, feitos no talho
exato, a barriga também esculpida pela boa vontade da natureza, a pele
branquíssima, a penugem ínfima, até mergulhar novamente sua boca entre as
pernas roliças, empurrando-a em direção ao clitóris, pressionando levemente
também o queixo na entrada da coisa linda que dali a pouco seria arrombada por
seu pau que já latejava."
"-
Eu vi o tamanho do mundo - repetiu atabalhoado o marceneiro outras tantas
vezes, enquanto tentava se lembrar das imagens que testemunhara, porém nada
mais lhe vinha à cabeça. À sua frente a fogueira e na mão a santa quase pronta,
entalhada na madeira. Abelardo voltou a entalhar e começou a mudar-lhe os
cabelos, deixando-os doidamente esvoaçantes, até que lhe parecessem cobras de
uma medusa celestial, que a tudo transformava, não em pedra, mas em infinito -
Eu vi o tamanho do mundo."
"Quando
finalmente pareceu mais calma, olhou no fundo dos olhos do marido e com um tom
de voz quase doce pediu que a soltasse. Ele acedeu. Mal tendo ele afrouxado as
mãos, ela escapou e correu e sem hesitar atirou-se na correnteza do rio, que
por ali passava largo e profundo. O marido, novamente mal acreditando no que
acontecia, também sem titubear mergulhou no rio, na tentativa de salvar aquela
que mesmo com todas as chances de ter enlouquecido, era a mulher que
amava."
"Ficou,
portanto, trancafiado apenas na lembrança de Comandante, que ali havia sido
terra de ninguém, de um falecido sem herdeiro. Até que ele se apossou, de modo
semelhante ao que se conta sobre o primeiro dono de algum lugar no mundo.
Diz-se que certo dia, nos primórdios da propriedade, alguém delimitou um pedaço
de chão e decretou: - Meu! - E acreditaram, sabe-se lá por meio de que
argumentos de força bruta ou de direito divino."
"Só
depois de esperar o suficiente para tornar justas as condições para ambos,
partiu para cima do oponente endereçando-lhe um direto no queixo. Naná, porém,
foi mais rápido. Esquivou-se com tempo até de sobra, o que fez Ualter rodopiar
entre as pernas, cambaleando engraçado. O povo comentou, fez barulho. Ariana
assistia a tudo com preocupação, desejo, culpa, e agora, por puro reflexo de
mulher, com ligeiro escárnio pela investida desajeitada de seu defensor."
(Veja o flyer do lançamento logo abaixo)
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